segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Chega sem bater: não está ocupado!



Você chegou numa hora ruim. De fato chegou numa péssima hora: chegou num dia em que não tinha como não te dar atenção. Chegou numa hora em que meu coração (por tantos meses feridos, sangrando e batendo fraco) estava revigorado, forte, pulsando de vida o suficiente pra bombear um fluxo contínuo por mim e por você.

Quando você chegou eu não tinha empecilhos. Não tinha traumas das vidas passadas, não tinha o sabor amargo da decepção. Tudo isso havia magicamente desperecido quando o pontinho verde apareceu ao lado direito da minha tela. Nessa época, uma época tão anacrônica quanto qualquer época que precede algo novo ou algo que aparentemente vai mudar sua vida, tudo o que mais queria era aproveitar a inconsistência do tempo... o torpor das horas vagas... e a futilidade dos dias desperdiçados. Daí então, num lapso temporal infinitesimal, todo desejo inútil e levemente improfícuo se metamorfoseia em vontade declarada: agora, subitamente, vejo pela primeira vez há tempos, a vontade de preencher meu tempo com suas chegadas furtivas, de disfarçar o torpor das horas com seu sorriso pequeno e transcender os dias e noites com a intensidade de um sentimento de bases sólidas, fixas e sem prazo de validade.

Algumas vezes penso no passado que por muito tempo fingimos não existir e sinto  o mesmo ar rarefeito da atmosfera onírica daquele dia que olhamos as estrelas juntos num telescópio de cano, que andamos em poltronas desconfortáveis nos ônibus de uma cidade desconhecida, que descobrimos o prazer químico do toque trêmulo na pele eriçada, que fingimos pra nós mesmos que a única vida viável era aquela com prazo de validade.

Quando deixamos esse mundo inventado por nós e exclusivamente pra nós, deletamos as informações por conveniências e formalidade sem saber que nosso HD biológico deixou oculta em partições ocultas uma mensagem, que pra não lermos estava codificada mas que poderia ser lida se recriássemos a mesma atmosfera do nosso mundo inventado por nós e exclusivamente pra nós.

Mas aí você chegou nessa péssima hora que todas as condições possíveis e imagináveis estavam a favor que recriássemos esse essa atmosfera. Chegou na hora errada de me pegar desprevenido, no momento exato que me despia de todas as armas de defesa. Você fez exatamente tudo o que podia ter feito para não criar algo que a cada dia penso ser mais inevitável: você incentiva sem saber todas as minhas formas de inconsequência, tolerância e desapego à vida que escolhi pra não ser fraco novamente. Vou considerar um sinal de boa vontade apenas com esse seu gesto: leia nas entrelinhas...      

7 comentários:

BrunoMaximos disse...

Muito bom mano, sensível demais, tal qual a licença poética permite aos escritores, que pelas palavras expressam um desejo distante da realidade vivida..

Suelli Martins disse...

Dilacera, homi!!!!

I have a dream' disse...

Muito bom mesmo.

Marina Cruvinel disse...

Uau.... adorei!!

Saulo Madrigal disse...

Obrigado gente. Muito bom saber que meus amigos me lêem!!!

Jean Calix disse...

Posta mais um, por favor. Não sabia que meu professor de biologia era um verdadeiro escritor. Excelente texto.

Layane Monize disse...

Gostei bastante... Ótimo blog, Madrigal!!!