sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sonhos de superfície



E depois de tempos voltam os sonhos de superfície. O limiar entre o real e o Real. Ele passa pelo dia como quem espera a noite, mas não quer dormir. Sonhos de superfície... Recapitula todas as cenas, verifica os ângulos como um diretor de cinema. Engraçado! Todas as recapitulações são em terceira pessoa: ele se lembra da cena como realmente tivesse assistindo um filme, se vê conversando, mas não consegue estar na cena, por medo talvez de ver o ódio irradiado para o ambiente, ódio que sai do olho que se perdera em tempos remotos. Rebobina. A cena muda conforme a realidade que se desejava que fosse. Mas é apenas uma projeção de como poderia ter sido. Sonhos de superfície.

O ódio irradiado projetado numa tela já usada é a temática principal da película. Imagina se ódio causa poluição ambiental, mas percebe que não tem provas científicas e decide permitir (como se dependesse de sua vontade) que vagarosamente as cenas se confundam e se misturem. Propositalmente deixa-se levar pelo mundo dos sonhos de superfícies, de cenas montadas, de realidades paralelas de mundos que só ficarão no campo da ficção.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Uma cena Pitoresca




Uma cena pitoresca.

No meio da madrugada a casa parece tremer de frio sob a chuva. O relâmpago ilumina o quarto vez ou outra para depois se ouvir um estrondo ensurdecedor. Como flashs poderosos disparados, a luz momentânea produz projeções de sombras fantasmagóricas. Um colchão velho cheio de traças, uma garrafa de água, um cobertor fino parece não ser o bastante para conter a febre. Mais um estrondo e ele desperta resfolegando.
A febre que sente não é física. Atormentado durante o sono desperta com imagens de um filme que já conhece muito bem. Cenas que se repetem em sua cabeça com uma frequência não captada por órgãos dos sentidos humanos. Uma agonia de não querer ser. Um frio na barriga que parece ser a alma tentando se esconder no estômago (ou mariposas).

Mais um relâmpago, mais sombras...

O limiar da luz é onde se forma a sombra. Aonde a luz não chega, a escuridão é deusa. Aonde a luz não chega!

O sono não volta mais – Pensa.

Reflete sobre isso e vendo que o relâmpago de 300.000 km/s não o alcança, percebe-se imerso na escuridão. Olha em volta e como não há mais que o velho colchão cheio de traças – que agora deixam o colchão e se alojam em seu estômago –, sente-se perplexo e só.

A chuva se amansa. Os flashs diminuem, a escuridão aumenta. Agora com todas as traças em seus estômago, se espremendo entre as microvilosidades e a alma (ou mariposas), sem móveis em sua ultima noite numa residência que não é sua, pede apenas que amanheça logo mesmo que a chuva permaneça por longos meses.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Tragicomédia da Vida Real

Dois casos terrivelmente reais me chamaram a atenção durante minhas samanas insones. O primeiro, com um colega da infância distante, pouco depois dos tempos imemoriais ou outro conto depois:




O rapaz, astuto, galanteador e zombateiro conquistou o coração da que eu chamo aqui de Maria Lúcia. João do Santo Cristo – esse rapaz que requestrou Maria Lúcia – sabia que a mulher que havia conquistado era mulher de um certo Jeremias, maconheiro e sem vergonha, traficante de bolinhas de gude da pacata vila de Santo Sebastião. João do Santo Cristo encontrava-se em perigo e resolve fugir para terras distantes, para além de grande Taguatinga, com sua amada Maria Lúcia, ao que Jeremias, traído pela mulher que havia escolhido para si, das tantas mulheres existentes no mundo que poderia envolvê-la com tapas, socos e pontapés, caiu em profunda desgraça. Deprimido, zombado em sua vila, saiu a procura dos dois desventurados.
O tempo passou ligeiro. Joãos do Santo Cristo com sua amada viveu feliz por todo esse tempo. Fizera em Maria Lúcia uma linda donzela que já completava seus três anos, cada dia mais astuta, engenhosa e serelepe que onde chegava chamava atenção de todos evidentemente. Nesse interim de felicidade vivia João do santo Cristo sem sbaer que o perigo o espreitava ao longe.
Num belo dia, quando João do Santo Cristo saiu para compra broas quentes, feitas pelo padeiro da região, panificação preferida de sua filha e mulher, foi seguido por Jeremias, que o havia encontrado há tempos por informação de um comparça, e estava a espreita esperando oportunidade ideal para acertar as contas. Assim que chegou em casa, João do Santo Cristo, feliz como é feliz um homem que ama, senta-se e compartilha com suas duas amadas as broas quentes recém assadas quando de repente, mesmo antes que os primeiros pedaços de broa fossem degustados, entra violentamente pela porta, espera que João do Santo Cristo o reconheça e saiba do que se trata tal empreendimento. João tenta esboçar um “ pelo amor de Deus não faç...”, mas Jeremias o acerta impiedosamente com cinco tiros de um instrumento de fogo. Olha para a mulher perdida, aponta o instrumento em sua direção, mas não consegue atirar na mulher que ainda amava e sai em disparada antes que as autoridades chegassem.
O corpo sem vida de João do Santo Cristo caído ao chão, ochoro de Maria Lúcia abraçada ao corpo e a criança com o olhar perdido, trêmula, imberbe em neblina. Pouco tempo depois a criança que nunca mais fora a mesma desde do dia trágico, não se mostrava serelepe nem engenhosa, não saiu mais de casa e um dia de chuva em pleno mês de novembro, sua mãe a encontra morta no lado da cama onde seu pai costumava dormir. Morreu de tristeza e dor.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

CPI do Chocolate

Foi o Zequinha quem fez a denúncia que envolvia o irmão mais velho, o Carlos, sobre um escândalo de corrupção. Tudo isso por causa de um pedaço de chocolate. O Zequinha pediu e o Carlos não deu. Assim ele (o Zequinha) resolveu botar a boca no trombone mesmo, acusando Carlos de desvio da verba do cursinho de inglês para o financiamento de uma moto.
A princípio o seu Aristides, que se declarou presidente, teve pressa em fazer uma investigação e intimou Carlos Souza para depor, após ser feita a quebra de sigilo de gaveta (um espaço adolescente altamente perigoso e sombrio) onde foi descobertas duas revistas playboy de 1989, um comprovante de pagamento do suposto esquema de financiamento, dois rolos de barbante que o seu Aristides achou bastante suspeito e um bolo de notas antigas.
O depoimento de Carlos durou quase duas horas e foi bastante revelador. Três nomes foram citados como beneficiários dos recursos desviados: Lucia Souza, a Lucinha, e Rosa Souza, aparentemente irmãs (pelo menos era o que suspeitava o seu Aristides que era o pai).
Com todas as provas (inclusive o comprovante do pagamento da vigésima segunda mensalidade da moto) Carlos alegou serem falsas as acusações feitas por Zequinha e disse que isso foi uma manobra feita por ele (o Zequinha) para manipula-lo.
Sobre as duas irmãs envolvidas no suposto esquema não estavam obrigadas a falar a verdade e pouca coisa se revelou. Seu Aristides exigiu a quebra do sigilo de escrita e analisou todas as anotações dos diários das garotas dos últimos seis meses onde não encontrou nada além da descrição exata dos últimos 17 caras que a Lucinha havia agarrado, com uma longa lista dos 35 possíveis pretendentes.
No diário de Rose Souza, apareceram vários nomes, entre eles o de D.Janice Souza, mãe de Carlos Souza, o então acusado do suposto esquema e imediatamente foi convidada a depor, mas que usou o pretexto de estar fazendo almoço para conseguiu mais tempo. O que chamou atenção de seu Aristides, no entanto, foi uma série de desenhos macabros e obscuros. Aquilo teria que ser verificado...
À tarde Zequinha encontrou alguns comprovantes de compras feitas em nome de Aristides Souza, o então presidente da CPI, queimados na varanda e pediu pressa na apuração de fotos além de observar um comportamento suspeitíssimo de D. Janice Souza que, apesar de não ser fumante, carregava consigo, por todo dia, um pequeno isqueiro.
Devido a pressão feita por Zequinha (e talvez pq estivesse na TPM ) D Janice Souza acabou cedendo e confessou ter feito tráfico de influência para colocar Carlos no curso de inglês, mas não tinha envolvimento no desvio de verba; e mais: disse que havia estourado o limite de cartão de crédito de Aristides...
Enquanto isso Carlos tentava uma possível negociação com Zequinha, oferecendo-lhe uma barra de chocolate caso ele (o Zequinha) retirasse as acusações.
O Zequinha aceitou com a condição de ser o chocolate que ele quisesse impreterivelmente nas sextas-feiras antes de da aula.
Ao final todos comeram uma pizza do tamanho do Congresso Nacional.
Com a acusação anulada, seu Aristides deu por fim as investigações mas continuou com a pulga atrás da orelha.
_Aqueles rolos de barbantes...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

2222 -TIRIRICA, pior do que tá não fica. (será???)

Algumas candidaturas revelam a indignação e a desmoralização da nossa política. Após a quantidade de votos recebidos pelo Macaco Tião em 1988 (em torno de 400 mil), numa candidatura não oficial lançada pelos humoristas do Casseta e Planeta para a prefeitura do Rio de Janeiro, a desmoralização subiu às alturas astronômicas. Nas eleições passadas tivemos eleito o finado Clodovil, e Frank Aguiar que eu me lembre. Agora temos a honrosa candidatura para deputado Federal por São Paulo pelo PR, nada mais nada menos que Tiririca.



Em um dos seus brilhantes discursos diz “O que faz um Deputado Federal? Na realidade eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto. Vote no Tiririca, pior do que tá não fica”.
Tiririca é humorista talentoso e acredito que deva continuar como artista e não sujar sua imagem com a política.

A Democratização da Democracia




A crise que se abateu sobre o Distrito Federal é a prova cabal da fragilidade da democracia e da prática política, bem como do desfaçamento das instituições públicas quando da utilização da coisa comum, coisa pública. A análise pode ser feita, no entanto, olhando-se por dois aspectos: se por um lado a crise mostrou-nos a nudez moral, as práticas culturais corruptas e ultrapassadas, a pequenez de espírito de nossos representantes; por outro fez nascer (ou evoluir) a indignação popular, a organização da sociedade civil – desorganizada - em torno de um objetivo e o senso crítico em expansão que fez, por exemplo, um governador de Estado dormir na prisão.

Não se pode negar que no fim de tudo as amarras foram afrouxadas, os culpados foram soltos e o dinheiro público tornou-se patrimônio de outrem que não seja o povo, mas já é um começo.

A questão básica da democracia e o que a alimenta é justamente a participação. A participação ativa evita que nasça o corrupto, impede que o dinheiro público seja encontrado numa conta particular e garante inclusive que seja usado de forma efetiva e eficiente (uma vez que o orçamento é autorizativo e não obrigatório).

A democracia é uma prática de conquista diária, é a luta pela minimização de interesses egoístas e a busca pelo coletivismo. Viver democraticamente de fato é um passo evolutivo.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Rituais Macabros: Um tratado sobre a incompletude humana




Em tempos de crise e inércias de paradigmas procura-se alívio aos males da alma das mais variadas formas. Enquanto na Índia milhares de asmáticos peregrinam atrás de uma misteriosa pasta amarela a base de ervas onde engolir um peixe vivo que pode ser uma sardinha ou um Murrel com o objetivo de se livrarem da asma faz parte de um ritual. Para que a cura seja completa o beneficiário deve repetir a dose por sete anos e seguir uma dieta especial com mais de 25 alimentos diferente incluindo carneiro, arroz, açúcar, manga desidratada, espinafre e manteiga de garrafa por 45 dias.
No Brasil alguns, objetivando a completude humana e em resposta a falta de paradigma, andam a agradecer pelas bênçãos que recebem num estranho ritual.
O ritual envolve orações ao deus todo poderoso com direito a papéis especiais marcados com números e cifrão (comumente conhecidas como dinheiro) em regiões do corpo que se queira uma bênção especial. Dessa forma pode-se colocar na cueca, nas meias, sutiãs, nas cestas e em lugares menos comuns como bolsos, carteiras e na contabilidade oficial.
Após os agradecimentos que devem ser em círculos com três componentes - alguns manuscritos sagrados permitem quatro ou mais dependendo da quantidade de papéis - abraçados em estilo dança judaica e obrigatoriamente com uma tremenda cara de pau. Como recompensa à devoção os fieis recebem grandes quantidades de panetone, uma espécie de pão doce de origem milanesa com leve toque de baunilha recheado com frutas cristalizadas, em suas residências.
Para que as bênçãos sejam completas é preciso que os participantes entrem numa dieta de silêncios, segredos sobre a real origem e composição dos componentes do círculo de agredecimentos e sobretudo nunca, repito, nunca os rituais devem ser filmados sobre risco de que as bênçãos se transformem em castigo e dor nas partes onde os papéis com cifrão foram colocados.
Aos rituais foram feitas várias críticas e a comunidade científica crê que “devido a falta de provas clínicas sobre os efeitos dos fenômenos e a não revelação de nenhuma prova concreta impossibilita que organismos mais sérios investiguem sobre a veracidade dos fatos” comenta o Dr. Hanibal Lecter.


A falta de completude do espírito humano é um fato antigo e leva várias gerações em busca de projetos de vida ardilosa baseados no engodo e na falta de caráter. O comportamento baseado nessas premissas levam ao excesso, ao descaso, à insensibilidade para com o próximo... Pelo contrário, a ingenuidade de pessoas que se apegam nos mais variados santos e milagres modernos é usada por outros seres humanos igualmente incompletos, mas sem o menor escrúpulo, onde panetones, cestas básicas, chinelos e morte são as únicas alternativas aos miseráveis de espírito e dinheiro (esse papel com cifrão e números tão desejado em nossa civilização).
O que ocorre na verdade é uma completa falta de humanidade que torna o político ladrão de milhões dos cofres públicos que poderiam ser utilizados para saneamento básicos de comunidades esquecidas por todos, para a construção de escolas, hospitais e todos os outros aparatos sociais que fazem da constituição de 1988 algo real, palpável e tangível; a falta de humanidade que faz do miserável um ladrão de pão ou do jovem de 13 anos um assassino em série. Como escreveu Eduardo Galeano no final de tudo “todos compartilham o mesmo desprezo pela vida humana”.
Enquanto levas de panetone estão sendo entregues em todas as partes, enquanto pessoas não estão mais sensíveis às crianças pedindo no sinal sabe lá Deus por qual motivo, enquanto a pobreza for olhada como algo sujo que deve ser canalizado e tirados da vista do mundo pré moldado, o mundo realmente estará submerso pelo incompletude, pelo desespero, pela agonia e se dará bem que for escritor de livro de auto ajuda ou fabricante de panetones.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Ode à carne de minha perna





Ode à Carne de Minha Perna

Deitado na cama da clínica tive uma vaga sensação de estar grávida. Ou melhor dizendo, grávido. Era engraçado sentir aquele gel frio como a morte deve ser fria sendo espargido pelo meu abdômen nu, levemente dilatado pela bexiga que em alguns instantes explodiria em um grande e poderoso jato de urina. Dias antes a recomendação era que o exame obdominal total deveria ser feito com a bexiga cheia e pela manhã. O que não sabia é que seria atendido depois das 11h quando na verdade cheguei à clínica às 6h50 min. Burocracias e burocracias.
Enquanto sentia o doutor, um homem lacônico e incompreensível como qualquer doutor o é, com aquele aparelho de ultrassom percorrendo os gomos adiposos de minha barriga não mais jovem, senti-me preenchido de um ser que respirava e se mexia dentro de mim. Vislumbrei essa onírica cena e pensei em meu filho, fruto de minha obsessão por coito, de minha sede de suor e fluidos corporais, fruto de minha embriaguês voluntária metamorfoseada em células, tecidos, órgãos, sistemas. Assume uma forma medonhamente humana como era de se esperar após anos a fio de evolução para que em minutos transforme minha vida na lembrança bela de um sorriso.
Ao deparar-me com ondas longitudinais transformadas em sons distinguíveis, ouço o pulsar do meu coração como se dele fosse. Sinto as entranhas revolver-me com as cabriolas executadas pelo pequeno e incompleto peralta. Percebo minha energia vital correndo pelo meu sistema circulatório e não mais sei discriminar se é energia minha ou dele.
Enquanto isso, alheio à todo colóquio interno, indiferente à introspecção filosófica que ali vem sendo engendrado, o doutor comenta meu interior preto e branco, faz medições de meus órgãos internos, aperta minha bexiga, murmura algo inteligível, aperta minha bexiga novamente e pede que eu me vire de forma que ultrassonografe meu rim obsoleto. “Tudo certo, aparentemente”.
“tudo certo, aparentemente” diz o doutor, pois não pode dar certeza. Eu, a manhã inteira na clínica e o doutor me vem com um “aparentemente”.
Saio às pressas para não acertar o doutor com meu poderoso jato, que de tão apertado já me escorria uma fina lágrima de canto. Enquanto acerto o sanitário com fúria penso no vislumbre, penso em meu filho, carne de minha perna, penso na mina gravidez não natural, penso em seu sorriso convidativo, na sua tosse, nas suas brotoejas, nas suas fraldas molhadas, no seu carrinho barato, na sua roupinha barata, nas sua bolsa, no pentinho suave para cabelos suaves, no seu pescoço que nunca vi e o amo mais ainda.
Saio da clínica correndo, um grávido louco correndo e gritando - sem pegar resultado, sem pagar o exame – com um pensamento fixo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Paradas e cruzadas


Andava despercebido quando de repente ouvi um som de música dos anos setenta e oitenta bem ao longe. Quando chegamos perto, Ascânio e eu vimos uma multidão reunida, muita sirene de polícia, corpo de bombeiros, um trio elétrico e muita, mas muita lata de cerveja espalhada por uma longa trilha até que nossos olhos perdessem o rastro.
Até então eu não havia reparado no verdadeiro motivo da multidão – e nem se quisesse havia visto por causa da miopia. Deu-se tudo quando vejo o Ascânio, um amigo que eu pensava conhecer a anos, idôneo e que sempre confiei em seus comedidos conselhos sobre a vida, filosofia e ciências ocultas, sair correndo no meio da multidão gritando “eu também sou lésbica, eu também sou lésbica...”. Quando reparo de fato, leio em um letreiro enorme “Parada Lésbica! Viva a Liberdade Sexual”.
Enquanto me aproximava, meio acanhado e vestido inadequadamente para ocasião me embreei por entre a multidão que reivindicava liberdade sexual, o fim do preconceito, liberação do casamento e uma igreja só delas em que tivessem nas paredes apenas imagens de santas. Elas eram de todos os jeitos: Executivas, Roqueiras, Punks, menininhas doces e meigas com vestidos floridos, meias até metade das pernas parecendo a Alice no país das maravilhas que beijavam suas parceiras com um frenesi inimaginável. Na hora lembro-me de ter sentido calafrios. Outras, com seus cabelos curtos como o meu um dia foi, pois hoje eles estão quase com um dia era os delas. Correntes e piercings por todos os lados. Homossexuais de todos os tamanhos e idades aderiram à parada de mãos dadas aos seus respectivos parceiros. As mulheres, a maioria delas, eram belas e atraentes, ou seja, elas estão em todas as partes e isso de certa forma é meio assustador. Eu tento imaginar qual foi a parte que nós, homens, héteros erramos.
Enquanto isso
tive uma visão terrível do Ascânio com toda sua magreza assustadora rodando sua camisa gritando “eu também sou lésbica” para os quatro cantos.
Tive que deixar o Ascânio para trás caso contrário perderia minha prova. Passei de todos. Das lésbicas, dos Guêis, do carro de polícia e da garota com seios de fora para continuar meu caminho. Mas a poucos metros dali vejo outro trio elétrico, com um senhor de terno e gravata e uma enorme bíblia na mão, pessoas com as mãos levantadas aos céus, de olhos fechados, com suas energias espirituais elevados até o último grau, cantando Batista Alagoinha. Tive certeza que vi alguém ascendendo aos céus.
A fé daquelas pessoas era inabalável, indestrutível. Senti uma paz interior que se desfez em poucos segundos quando percebi que os dois grupos iriam se colidir ali mesmo, a meio caminho no exato lugar onde eu estava não havia como correr.
Em pouco tempo as musicas dos grupos começaram a se misturar. As lésbicas começaram a gritar Quadrarões, cafonas, os aleluias... Enquanto do outro lado os evangélicos respondiam Sai demônio, prostitutas da babilônia, Jezebel, o Juízo final está próximo... As multidões numa gritaria sem fim se misturaram, os trios pararam e os dois líderes dos movimentos trocavam insultos apavorantes. A polícia tentou vestir a garota com os seios de fora que o jovem evangélico tentava apalpar-los e ao mesmo tempo separar uma lésbica de terno e calcinha que, soube-se depois chamava-se Jorge, e dava bibladas na cara de uma irmã que tentava levar-lhe a palavra de Deus. E num minuto a confusão estava generalizada.
Eu naquele meio tentava desviar-me dos ataques, de um lado pelos crentes que achavam que eu era guêi e do outro pelas lésbicas que acreditavam que eu era crente. O pastor jogou uma bíblia na cabeça da líder do outro movimento e foi acertado por um salto jogado pela garota vestida de Alice no país das maravilhas. As músicas continuavam ligadas no mais alto volume, mas deu empate. O Ascânio, em cima do trio dos evangélicos gritava: Eu também sou lésbica, eu também sou crente, eu não sei o que sou...
O caminho continuou com muito custo. A polícia deu um jeito de desviar os trios mas algo havia mudado drasticamente. As irmãs da igreja estavam beijando-se enquanto as lésbicas gritavam-se “arrependam-se raças de víboras!”. O pastor viu um monte de pessoas entulhadas e saiu correndo dizendo Eu sou a cereja, eu sou a cereja!
A garota de seios de fora sentou-se em uma das paradas para ler uma página da bíblia e o garoto crente que tentava pegar-lhe os seios, beijava seu colega recém conhecido. Tudo parecia um caos terrível. Eu apenas agachei e comecei a chupar meu dedo que é o que eu sempre faço em situações de calamidade pública. Mais no canto, um policial tirou as calças, ficou apenas de coturnos, sinto operacional e quepe parecendo um cantor do “Vilage peapols” e seu colega dizendo sai de cinco em cinco em ordem alfabética pra não fazer tumulto.
Quando se afastaram, os crentes com o trio das lésbicas e as lésbicas com o trio dos crentes, ficou apenas eu, um rastro de bíblias, latas de cervejas, preservativos e vidrinhos de óleos da unção e os Ascânio gritando eu também sou...
Parece até mentira.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

SEREIAS


A Suzana quase teve um infarto
quando perguntou para filha, a Julinha, o que ele queria ser no futuro

__ Quero ser uma sereia
__ Sereia?
__ É, mãe, sereia! Daquelas com rabo grande e conchas nos seios.

Claro que isso não seria um problema se a Julinha não tivesse dezessete anos...

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“Bem”, pensou a Suzana, “não é uma médica como queria que fosse, mas tem lá seus mistérios”
O pai de Julinha, o seu Antenor, se opôs drasticamente a idéia. Era um homem de princípios e mais tradicional que rótulo de aveia Quaker:

__ Filha minha não sai por ai mostrando rabo pra ninguém!

Mesmo assim, após muita insistência da Suzana acabou cedendo, mas aconselhou a filha:

__ Tome cuidado, minha filha! Você sabe o que fazem com peixe né?
__ Não, o que papai?
__ Cortam a cabeça e comem o rabo...

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O namorado da Julinha ficou desconsolado com a descoberta, já que eles moravam no interior de Minas e ela teria que se mudar para o litoral e acabou recusando o convite de Julinha. Disse que talvez não ficasse bem de calda. Alem do que, tinha outros planos para o futuro: ser Unicórnio.

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O infarto veio mesmo quando soube da tragédia: no meio do caminho a Julinha se apaixonou pelo Saci- Pererê e foi morar na amazônia, depois teve um caso com o Curupira, que não é tão feio como falam e o mais próximo que chegou de ser uma sereia, foi um romancesinho de água doce com o Boto-Cor-De-Rosa.